segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Qual o significado de sermos "Embaixadores de Cristo"?



“Dupla Cidadania” ou “Cidadania Múltipla” é um status no qual um indivíduo é titular da nacionalidade de dois países diferentes. Todo cristão se encaixa neste contexto, já que nossa “base operacional” não é terrena, estando perene numa esfera espiritual, uma vez que o próprio Jesus revelou: Meu reino não é deste mundo (João 18:37). Todo cidadão tem diretos e deveres para com a pátria madre, e considerando que nosso lar original é o céu, então devemos preencher alguns requisitos que validem nossa cidadania celestial.

Davi se questiona sobre esta questão no Salmo 15:1, quando pergunta: - Senhor, quem habitará no teu Tabernáculo? Quem morará no teu santo monte? – Já nos versos seguintes o salmista apresenta uma pequena lista com algumas qualificações necessária: andar sinceramente, praticar a justiça, falar a verdade no seu coração, não difamar com a sua língua, não fazer mal ao seu próximo, não aceitar que o seu semelhante seja envergonhado, compactuar com as ações de homens impiedosos, valorizar quem teme ao Senhor, pensar primeiramente nos outros, não se deixar dominar pelo dinheiro, não incriminar um inocente e jamais ser corrompido. Já em I Coríntios 5:20, o apóstolo Paulo eleva esta questão a um novo patamar fazendo a  grandiosa revelação que somos mais que apenas “cidadãos do céu”, e sim “embaixadores de Cristo” na Terra. 

Um embaixador nada mais é que um representante legal de um estado/nação, dentro de outro estado/nação do qual ele não é originário. Partindo deste principio, somos cidadãos do céu, que temporariamente representamos nosso reino Celestial aqui na Terra (João 17:11).

Como tal, priorizamos por respeitar o código ético e moral de nosso Reino original, os céus. Porém, como no momento, moramos numa terra estrangeira, é preciso honrar as leis aqui estabelecidas, desde que as mesmas não se confrontem com as leis celestiais. É neste ponto que a fidelidade do cristão se horizontaliza, sendo demonstrada em todos os aspectos do seu cotidiano. Fomos chamados para ser luz do mundo e sal da terra, fazer a diferença, ser uma referência de ética e comprometimento(Mateus 5:13). Em seu famoso sermão “A Casa na Montanha”, o pastor americano Martin Luther King disse que os cristãos não devem ser meros termômetros, que avaliam a temperatura a sua volta e nada faz para mudá-la, mas que deveríamos ser como termostatos, que após avaliar a temperatura do ambiente, age para transformá-la.  Sabemos que os sistemas que regem o mundo foram entregas ao maligno, mas isso não deve nos impedir de promover mudanças no meio em que vivemos, levando luz para um cenário repleto de trevas.


Essa influência passa primeiro pelos bons exemplos. O cristão tem por obrigação ser um aluno dedicado, um profissional competente, um motorista cuidadoso, um gestor eficiente, um benfeitor abnegado, bom pagador de suas dividas, um empregador complacente, um doador generoso, um eleitor consciente, um político honesto, um homem respeitoso e respeitável, um adorador atemporal... É nas pequenas coisas que mostramos nossa fidelidade... É em gestos e ações cotidianas que as pessoas identificaram Cristo em nós... É honrando calendários, horários e compromissos assumidos que honraremos também nossa cidadania eternal. O que somos é sem duvidas a mais eloquente de nossas mensagens. Afinal, como já disse Agostinho: Pregue o Evangelho, se precisar, use palavras.

domingo, 25 de outubro de 2015

Um batismo de poder



Livremente baseado na ministração do Pr. Wilson Gomes no Culto da Família, em 25/10/2015.

Somos um povo pentecostal. Esta condição, que tanto nos orgulha no Senhor, tem sua origem num evento registrado em Atos 2, quando um grupo de 120 remanescentes da Ascenção de Cristo, ainda se reunia no cenáculo de Jerusalém aguardando o “PARAKLETOS” prometido por JESUS.

Era o último dia da Festa de Pentecostes e a cidade estava repleta de turistas provindos de as partes da terra.   De repente um som como o de um vento muito forte é ouvido por todos aqueles fiéis. Pedro levanta seus olhos procurando a origem daquele barulho, mas acaba se deparando com uma “mini fogueira” bailando sobre a cabeça de João... Assustado corre seus olhos pela congregação e vê que André, José, Matias, Maria, Tomé, Mateus, Natanael, Felipe, Nicodemos e muitos outros também estão sob “línguas de fogo flamejantes”... Ao abrir a boca para exclamar em espanto, sua fala saí em um idioma que ele se quer conhece... Pedro se cala. Volta-se para João que também o fita espantado, pois ao tentar dizer “Pedro, sua cabeça esta em chamas”, soltou um “decantalabassi”...  A partir daí aqueles varões galileus, não conseguem mais se conter, e começam a falar em diversas línguas distintas, conforme o Espírito lhes dava condição de falar.  

Este relato da chegada do Espirito Santo traz nas entrelinhas as três razões básicas para a existência do que chamamos de “Línguas Estranhas”, ou de acordo com a descrição de Lucas, nem tão estranhas assim. Falar em Línguas por inspiração espiritual (sem tê-las aprendido antes) é uma evidência cabal do Batismo do Espírito Santo que foi profetizado por João – o Batista (João 1-31-33, Atos 2:4-6, 19:6). Línguas “estranhas” trazem edificação para quem as fala, pois funcionam como uma comunicação pessoal com o próprio Deus. (I Coríntios 14:1-15, Romanos 8:26-27, Efésios 6:18, Judas 1:20). Línguas estranhas são dadas a igreja como um sinal para o incrédulo, e também como uma revelação de Deus para o Corpo de Cristo, caso haja quem as interprete (Atos 2:12, I Coríntios 12:10, 14:5-22).

A língua estranha é uma manifestação sobrenatural da presença do Espírito Santo numa inspiração vocal, e através dela o cristão é capaz de falar uma Língua completamente diferente do seu idioma natural sem nunca tê-lo aprendido. Num jargão “pentecostal”, convencionamos a dizer que a Língua Estranha é a língua dos anjos, e  pode ser que alguém seja sim inspirado pelo Espírito para falar numa língua usada por seres angelicais (I Coríntios 13:1), mas a grande maioria dos “idiomas” falados durante esta inspiração espiritual ou são de línguas da Terra ou uma língua misteriosa que apenas Deus conhece.

Falar em Línguas usando idiomas da própria Terra serve para testemunho de quem ouve ou para a transmissão de uma mensagem específica a um indivíduo que a entenderá por conhecer aquele idioma sobrenaturalmente usado. Falar em Línguas usando um misterioso idioma, completamente desconhecido seja na Terra ou nas esferas celestiais, de forma que só Deus o entenda, visa à edificação do próprio comunicador.

O batismo com o Espírito Santo representa um revestimento de poder que dá ao cristão, ousadia e virtude espiritual para a realização da obra de Cristo; já o ato de falar em LÍNGUAS é uma evidência externa deste mesmo batismo. Todo o Cristão deve sim falar em LÍNGUAS, pois o uso pessoal desta “Graça” produz auto edificação ao seu locutor. Além disso, as “LÍNGUAS ESTRANHAS” são poderosas ferramentas de louvor e oração, duas atividades deveras importantes na vida do Cristão e que são igualmente combatidas por Satanás, havendo necessidade deste fortalecimento sobrenatural.

O Batismo no Espirito Santo, também conhecido como Batismo de Poder, é sim uma realidade, e se mantem tão atual quanto no dia de pentecoste. O crente em Jesus deve buscar no Senhor este revestimento poderoso, buscando em oração constante o Batismo com o Espírito Santo. Esta é uma experiência única e transformadora, que nos leva a uma nova dimensão de espiritualidade, onde podemos experimentar em nossa própria vida um pouco mais da multiforme Graça de Deus.

Culto dos Aniversariantes - Outubro 2015



Na noite deste domingo, 25/10/2015, realizamos um culto especial em homenagem aos aniversariantes do mês de outubro, onde pudemos louvar ao Senhor pela vida de nossos desses servos de grande valor, e elevar aos céus uma oração especial, pedindo que nosso Deus abra as janelas do Paraíso sobre suas vidas e de todos os seus familiares.

Aos ilustres aniversariantes, parafraseamos o apóstolo Paulo em sua carta a Filemom, dizendo:  - Dou graças ao meu Deus, lembrando-me sempre, de ti nas minhas orações, estando ciente do teu amor e da tua fé que tens para com o Senhor Jesus e todos os santos, para que a comunhão da tua fé se torno eficiente no pleno conhecimento de todo bem que há em nós para com Cristo. Pois tive grande alegria e conforto no teu amor, porquanto o coração dos santos tem sido reanimado por teu intermédio (Filemom 4-7).  

Parabéns a todos por mais esta primavera!

06 – Érica Lino Vieira
07 – Ana Júlia Garcia da Silva
11 – Lauro Silva
12 – Amanda F. ds Silva
12 – Claudia M. Zaratin
12 – Valquiria Aparecida Cássia Andrade Gomes
14 – Sonia Bernadete Passareli Gomes
18 – Jaqueline Aparecida de Souza Silva
18 – Luciano Passareli Gomes
19 – Marta Fernandes Ferreira
20 – Danilo de Almeida Oliveira
23 – Edson Paiva da Silva Filho
26 – Julia Rafaely de A. Barbosa
29 – Luana Tainara de Oliveira


sábado, 24 de outubro de 2015

Culto Especial de Mulheres com Pr. Maximiliano Machado



Muitas civilizações (e até mesmo alguns organizações de nosso tempo), tem relegado a mulher para uma posição de inferioridade ao homem. Mas, embora Bíblia aconselhe aos maridos que honrem suas esposas como vasos mais frágeis, esta fragilidade em nada tem a ver com a capacidade que a mulher tem de ser uma ferramenta poderosa nas mãos de Deus, muitas vezes, com maior utilidade, extensão e destreza que a grande maioria dos homens.

Se analisarmos as páginas das Sagradas Escrituras, encontraremos inúmeros exemplos mulheres virtuosas, que com muita fé, ousadia e coragem foram protagonistas de feitos memoráveis. Na guerra travada contra os canaanitas, apesar do exército israelita ser formado apenas por homens, a vitória chegou através das ações de duas mulheres: Debora e Jael. Quando um ardiloso plano colocou em risco toda a comunidade judaica na Pérsia, Deus usa uma moça por nome Ester para livrar seu povo da morte.

Na noite deste sábado, 24/10/2015, o Círculo de Oração Lírio dos Vales realizou um emocionante Culto Especial de Mulheres, que contou a preleção do Pr. Maximiliano Machado (Mogi Guaçu). O ministro do Senhor trouxe a memória a importância de diversas mulheres na história bíblica, fazendo uma menção especial a duas delas, Ana e Maria, benditas e agraciadas.

Ana era uma mulher estéril, que vivia sob constante afronta da segunda esposa de seu marido. A angustia da infertilidade dominava sua alma, a ponto de leva-la a perder o desejo pela vida. Ana, porém, não se rendeu ao desespero, e buscou em Deus um milagre para sua vida. Com o rosto em pó, ela clamava lançada ao chão no templo em Siló, a ponto do sacerdote Eli achar que ela estava embriagada. Porém, ao tomar conhecimento de sua história, ele declarou sobre sua vida uma palavra de benção, que foi o suficiente para alegrar seu coração. Certa de sua vitória, Ana saiu do templo com um sorriso nos lábios, e em pouco tempo, concebeu e deu a luz a um dos mais notáveis homens da história: Samuel.

Maria era uma moça simples, humilde e muito pobre, desposada com um carpinteiro de Nazaré. Mas um dia, ela recebeu a visita de Gabriel, um notável anjo enviado pelo Senhor, afim de notifica-la sobre um futuro notável: Mulher agraciada! Bendita és tú entre as mulheres! De teu ventre sairá o Salvador do Mundo: Jesus

Provérbios 31:1 apresentam ao mesmo tempo uma pergunta e uma revelação: Mulher virtuosa, quem a achara? O seu valor excede aos rubis. Deus tem buscado e encontrado mulheres tão valorosas que nem mesmo as maiores fortunas do mundo se podem equiparar. Mulheres que se tornam portas para que as bênçãos do Altíssimo alcancem famílias, cidades, nações, e até mesmo, a própria humanidade.

Débora, Jael, Ester, Ana e Maria são apenas alguns nomes de uma lista muito extensa, e que ainda continua aberta. O Senhor ainda está buscando mulheres de valor para fazer a diferença no mundo e na história!




sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Um gesto de devoção


Os evangelhos narram duas histórias distintas que de tão semelhantes chegam a confundir até mesmo leitores atentos. Ambas falam sobre mulheres que demonstraram sua gratidão pelo amor do Cristo através do emblemático gesto de “ungir” seus pés com perfumes caríssimos. Mateus 26:2-13 e Marcos 14:3-9 registram a ação da mulher que durante um jantar realizado em Betânia, na casa de Simão, o “Leproso” (pai de Judas Iscariotes, e que fora curado por Jesus de sua lepra), se aproxima de Jesus tendo nas mãos um vaso de alabastro (material semelhante ao gesso). Ela se ajoelha em frente a Jesus e começa a derramar em seus pés um caríssimo perfume feito de “nardo puríssimo” para depois enxugar o precioso líquido com os próprios cabelos. Os discípulos se indignaram com a cena, pois entendiam que aquela era uma atitude dispendiosa, já que o dinheiro ali empregado, poderia ser doado aos pobres. Segundo a avaliação de Judas, tesoureiro do grupo, o valor ali desperdiçado era de aproximadamente 300 denários, cerca de R$ 15.000. Ao ver a postura reprobatória de seus seguidores, Jesus os exorta dizendo que aquele era um gesto único de amor, acalentando seu coração para enfrentar a própria morte, e que o mesmo, ecoaria pela posteridade. Além disto, Jesus lembrou os discípulos que eles ainda teriam muito tempo para exercer a generosidade para com necessitados, porém, muito brevemente seriam privados de sua companhia.  João 12:1-8 também registra esta mesma história, mas desta vez, nos é revelado o nome da mulher generosa: Maria, irmã de Lázaro.

Lucas 7:36-50 nos conta uma história muito parecida, porém, em um cenário diferente. Muito antes do famoso “Jantar de Betânia”, uma outra mulher também se lançou aos pés de Jesus para ungi-lo com perfume. Não sabemos o seu nome e nem sua origem, pois a única referência dada pelo evangelista é que se tratava de uma “pecadora”. É provável que este fato específico tenha acontecido na Galileia, enquanto Jesus participava de um jantar na casa de Simão, o “Fariseu”. Num ambiente repleto de pessoas muito ligadas a religiosidade judaica, em nome do amor e movida por íntima gratidão, uma mulher de péssima reputação social, rompe com as conveniências, adentra a casa de um homem muito religioso, não se detém diante de monções reprovadoras e caminha determinada, com os olhos fixos em Jesus. Humildemente, ela se nega a ficar diante do Messias, e se colocando atrás de Jesus, abraça seus pés e se põem a beija-los, para logo em seguida, começar a chorar. Ao perceber que suas lágrimas estão molhando os pés do Senhor, ela passa e enxugá-los com seu cabelo, e então, derrama sobre eles, sem nenhuma reserva, o perfume de aroma delicioso que trazia consigo, ungindo os pés de Jesus.

Duas mulheres movidas por sentimentos muito parecidos, que testemunharam de forma pratica e incontestável o quão maravilhoso é mergulhar sem reservas no oceano da Graça. Voluntariamente elas escolheram a melhor parte, e entenderam que não existe lugar mais desejável para se estar, do que os pés de Jesus. A virtuosa Maria de Betânia, tinha motivos explícitos para tamanha devoção. Movida pelo amor que sentia por Jesus, seu mestre e amigo, ela aproveita a estadia do Cristo em sua cidade, para através da entrega de seu bem mais precioso, agradecer ao Messias por ter trazido seu irmão Lázaro de volta para vida, e involuntariamente, entra para a história como a mulher que ungiu Jesus e o preparou para enfrentar a cruz e o sepulcro. A pecadora anônima não tinha motivos aparentes que justificasse sua atitude, e também não temos qualquer evidência que Jesus tenha curado alguém de sua família. Mas ali, naquele momento sublime, o Cristo olha além das aparências e descortina o coração daquela mulher. Ela estava grata pelo maior de todos os milagres... Tinha encontrado Salvação. Com seu gesto, Maria agradeceu a Jesus pelo dom da vida. A pecadora agradecia por ter encontrado a própria Vida e o perdão para seus pecados.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

EBD - O exercício da misericórdia manifesta a graça de Deus


Texto Áureo
Filemom 15
Porque bem pode ser que ele se tenha separado de ti por algum tempo, para que o retivesses para sempre”

Verdade Aplicada
Através da revelação da graça, nasceu uma nova relação, na qual todas as diferenças externas são abolidas, pelo fato de que todos nos tornamos irmãos e filhos do mesmo Pai.

Textos de Referência
Filemom 10-16

Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas minhas prisões; o qual, noutro tempo, te foi inútil, mas agora a ti e a mim muito útil; eu to tornei a enviar.
E tu torna a recebê-lo como as minhas entranhas.
Eu bem o quisera conservar comigo, para que por ti me servisse nas prisões do evangelho; mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o teu benefício não fosse como por força, mas, voluntário.
Assim, pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo.
E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta.


A Lei do Amor

Na visão de Paulo, mas vale sair no prejuízo do que entrar em litígio com um irmão de fé (I Coríntios 6:6-7). Antes de escrever sua primeira carta à igreja em Coríntios, o apóstolo havia recebido notícias perturbadoras sobre aquela comunidade. Eles estavam vivendo imersos em conflitos teológicos e rupturas doutrinárias. Paulo envia para aquela igreja a sua carta mais “agressiva”, tratando-os como meninos na fé, levianos e sem amadurecimento espiritual. Entre os diversos temas abordados na epístola, três dele recebem de Paulo uma atenção especial: dissensões (capitulo 3), litígios (capitulo 4) e divórcios (capitulo 7). Estas questões de destacam entre as demais por um motivo bem específico. Além de corroborar com a crescente ruptura nos laços fraternais daquela comunidade, estavam expondo a igreja diante da sociedade, entregando causas genuinamente eclesiástica ao julgamento secular. Paulo, não se conformava com isso. Após advertir os corintos com veemência sobre a postura que deveriam ter como cristãos, portadores da uma promessa que serão juízes do mundo, e não o contrário, Paulo interpela para que trilhem o mais excelente dos caminhos: a caridade. No amor se resume a fé cristã, todo o mandamento divino e a vida cotidiana do cristão. Em sua essência, podemos considerar que o amor é o maior de todos os presentes dados por Deus ao ser humano, seja no privilégio de ser amado ou na capacidade de amar. O amor é a base da nossa pregação, é o lema de nossa cruzada celeste, a motivação de nosso serviço e a coluna cervical dos frutos espirituais.

Deus nos ama incondicionalmente, e este é sem dúvida o mais valioso dos presentes. É desfrutando plenamente deste amor que obtemos os meios necessários para manifesta-lo ao próximo. Entretanto, é necessário entender que o amor cristão exercido diariamente não deve ser dado a nós por Deus, mas sim desenvolvido por nós para Deus. Primeiramente porque Deus já nos amou e por amor Jesus Cristo deu sua vida por nós e agora, imersos neste amor, precisamos desenvolver um amor genuíno por aqueles que nos cercam e para com o nosso próprio Senhor. O desenvolvimento do amor fraternal foi o argumento definitivo de Paulo para dar uma resolução permanente aos embates existentes na igreja de Corinto. Paulo os aconselha a pautarem suas ações e decisões no amor, pois ele tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (I Coríntios 13:7). Agora, escrevendo a seu amigo Filemom, Paulo lança mais uma vez o mesmo argumento, afim de sanar uma divergência do passado. O que Paulo insistia em ensinar aos seus discípulos é que qualquer julgamento dentro da igreja deve primeiramente passar pela peneira do amor.

Filemom era um bom cristão. Exercia influência positiva na igreja de Colossos, sendo identificado por Paulo como um grande motivador, com a capacidade de reanimar o coração dos santos (Filemom 7). Aquele, sem dúvidas, era um homem de muitas virtudes e deveras amoroso. Mas ainda existia em Filemom um resquício do passado, quando foi usurpado por um de seus servos. Onésimo causou grande perca a Filemom e se embrenhou pelo mundo, deixando aquela ferida emocional aberta e sem resolução. Havia chegado a hora de agressor e agredido, defraudador e defraudado, assaltando e assaltado se olharem nos olhos mais uma vez, só que agora não como senhorio e escravo, mas sim como irmãos em Cristo. Paulo deseja ardorosamente que este reencontro aconteça, pois, além de ser o “pai” espiritual de ambos, tornou-se amigo pessoal de cada um deles, conhecendo o coração generoso de seus filhos na fé.


Conhecendo os personagens

A epístola dirigida a Filemom é de uma preciosidade inigualável no Cânon Sagrado. Ela revela o que a graça de Deus pode realizar na vida de pessoas escravas e sem perspectivas como Onésimo, o escravo que se tornou irmão. A epístola não nos revela o que realmente Onésimo usurpou de seu senhor Filemom. Ela apenas diz que ele fugiu em direção a Roma e pode ter furtado algo de valor para garantir-se (Filemom 18-19). Por meio de circunstâncias não registradas na Palavra de Deus, Onésimo conheceu o Apóstolo Paulo na prisão e tornou-se cristão.  Ao que parece, Filemom era um rico cidadão de Colossos. Sua conversão se operara através da pregação do apóstolo e existem fortes laços de amizade entre eles (Filemom 17-22). Filemom é descrito por Pulo como um homem de amor e de fé, tanto para com Jesus Cristo quanto para com o povo de Deus. Seu amor era prático. Ele reanimava os santos por meio de suas palavras e de seu trabalho (Filemom 7). AS igrejas do Novo Testamento reuniam-se nos lares (Romanos 16:5-23 / I Coríntios 16:19). É bem provável que a igreja na casa de Filemom fosse uma das duas congregações de Colossos (Colossenses 4:15). Por se tratar de um homem muito rico, Filemom tinha escravos em sua casa, uma prática comum, visto que mais de um terço da população do Império Romano estava sob o jugo da servidão. A posição dos escravos no Império Romano era muito humilhante. Um escravo não era visto como uma pessoa; era uma ferramenta vivente. Qualquer senhor tinha direito de vida e morte sobre seus escravos. Poderia condená-los a tarefa pesadas, ordenando até que trabalhassem acorrentados no campo. O senhor poderia castiga-los com golpes de vara, ou até mesmo marca-los na fronte como se marcava um animal. Caso fossem ladrões ou fugitivos e, se comprovasse que era impossível corrigi-los, este senhor poderia crucifica-los.

Onésimo nasceu escravo, sem Deus e sem esperanças (Efésios 2:11- 12). Certamente, motivado pela pregação que ouviu, desejou ser livre e partiu para Roma. Ele escolheu seu próprio caminho de liberdade, mas algo parece não ter mudado em sua vida e resultou em uma prisão, pior ainda que a escravidão. É nessa hora que ele encontra um preso chamado Paulo, que lhe anuncia a salvação e daí por diante, ele se torna um homem livre e útil ao apóstolo (Filemom 10-14). Paulo escreve uma carta a seu filho na fé Filemom, dizendo que receba em suas entranhas. Onésimo agora deve voltar, mas volta numa condição diferente. Ele retorna como irmão em Cristo (Romanos 8:1). A manifestação da graça salvadora é fruto do Deus Salvador que nos ama profundamente em Cristo. O nosso Deus nos ama não para barganhar conosco, mas porque Ele é amor (I João 4:8). O Evangelho de Cristo é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Romanos 1:16). A manifestação do Evangelho da graça de Deus revela a nossa condição vil, a ação soberana de Deus em nos buscar em Cristo e a plena segurança que temos nEle. É por causa desta graça que temos o lindo cântico de Moisés em Apocalipse 15:3-4. O Senhor Jesus deixou bem claro o motivo da sua vinda: buscar e salvar o que se havia perdido (Lucas 19:10). Deus é glorificado quando um homem é salvo por Sua maravilhosa graça. Exatamente como na vida de Onésimo.

Na epístola, Paulo tipifica o Senhor Jesus Cristo, Onésimo, a humanidade pecadora e escrava, e Filemom, o Pai, que deve conceder o perdão ao pecador regenerado por Cristo. Paulo gostaria de ficar com Onésimo, mas o envia de volta a Filemom, Porque não deseja fazer nada sem o seu consentimento (Filemom 13-14). O cristianismo não existe para ajudar os crentes a escaparem de seus pecados. Ele existe para capacitar os seguidores de Cristo a enfrentar o passado e a elevar-se acima dele. Onésimo tinha escapado, mas deveria voltar e enfrentar as consequências de seus atos. O cristianismo não é uma fuga dos erros do passado. É a conquista de uma nova vida (João 8:12 / Romanos 6:4). Onésimo morava dentro da igreja, mas não era livre. Ele encontrou sua liberdade numa prisão. Que paradoxo! Dois presos se encontram numa prisão e um preso liberta o outro. Paredes podem aprisionar um corpo, mas jamais poderão aprisionar o espírito. 


Encontrando Deus em lugares inesperados

Deus sempre tem um plano meticuloso para a vida do homem. Nossos dias são escritos no seu livro antes mesmo que nossos ossos estejam formados no ventre. O Senhor deseja que caminhemos linearmente rumo aos seus propósitos, mas respeita nosso livre arbítrio. Seguimos nossos instintos e acabamos presos num emaranhado de erros que prendem nossos pés e impedem nossa jornada. Assim, fazemos paradas não planejadas, estagnamos em trechos transitórios e passamos a viver de situações improvisadas e lugares inóspitos. Porém Deus não desiste de nós, e também se embrenha em nosso mundo tortuoso, ganhando passos a nossa frente, facilitando “encontros” na beira do caminho. Por mais perdido que estejamos, basta olhar em volta com um pouco mais de atenção para perceber que Deus está lá, nos aguardando com um sorriso no rosto. A história de Filemom e Onésimo é uma prova incontestável desta verdade. Onde olhares incautos apenas identificarão uma série de coincidências, é possível constatar o trabalhar detalhado e perfeccionista de Deus. Filemom era um homem de posses, que se converteu ao evangelho após a incursão de Paulo na cidade de Colossos. Seu envolvimento com a obra de Deus foi notório e digno de elogios, já que era ativo na proclamação do Evangelho, cedendo sua casa para que uma igreja fosse estabelecida ali. Sendo muito rico e vivendo sob a égide do Império Romano que dava legalidade a escravidão, Filemom era sim dono de diversos escravos.

Onésimo é historicamente lembrado como sendo um dos maiores líderes da igreja de Efésio, mas aqui, aparece apenas como um dos escravos de Filemom. Por algum motivo não relevado, Onésimo fugiu para Roma, aparentemente levando consigo alguns valores e causando grande prejuízo ao seu senhor. Ele, porém, acabou sendo preso em algum ponto de seu caminho, sendo conduzido a uma prisão. Foi exatamente neste período de sua vida, que o escravo fujão passou a conviver com um prisioneiro ilustre chamado Paulo. Não sabemos ao certo se ambos dividiram uma cela em Roma ou se a amizade se desenvolveu em Éfeso, quando Paulo esteve preso pela primeira vez. Certo é, que Onésimo também aceitou o Evangelho de Cristo, se tornando um colaborador ministerial de Paulo, que por sua vez era o mentor espiritual de Filemom, por quem também nutria grande amizade. Coincidência?

Há um ditado popular que diz: o amigo de meu amigo é meu amigo. Agora, Paulo possui vínculos fraternais com duas pessoas que entre elas conservam uma rusga do passado. O apostolo vê então a oportunidade de usar sua influência junto a ambos para por um fim definitivo a esta questão. A carta para Filemom é mais pessoal das epistolas paulinas, e pode ser entendida como um pedido particular do apóstolo a seu amigo Filemom para que o mesmo perdoe seu também amigo Onésimo. Teria o escravo aproveitado um momento de distração do senhorio que ouvia atentamente as palavras de um missionário para fugir? Quem sabe. Mas quais seriam as reais possibilidades deste mesmo missionário ser preso por amor a Cristo e acabar dividindo sua cela com um escravo foragido de uma das casas onde ministrará meses atrás? Tudo estava engendrado pelo Senhor, e a perseverança de Paulo foi o ponto de equilíbrio numa história que parecia ser trágica e vertiginosa. Em sua liberdade, Paulo fez um amigo chamado Filemom, e a igreja de Colosso ganhou um excelente obreiro. Em prisão, desenvolveu a amizade de Onésimo, e a igreja de Éfeso ganhou um bispo. Deus revela-se perfeito em seus encontros, nem que seja no mais inesperado dos lugares.


A conversão de Onésimo

Como escravo fugitivo, Onésimo deveria ser punido se voltasse para a casa de seu senhor. Porém, a graça de Deus o encontrou. Agora, as coisas mudaram de figura porque, diante de Deus. Filemom também devera recebe-lo como um irmão e perdoá-lo por seus agravos (II Coríntios 2:10). Paulo afirma a Filemom que Onésimo em outro tempo lhe era inútil. Ele faz um trocadilho com o significado de seu nome que quer dizer “útil”. E diz: “agora” a ti e a mim muito útil (Filemom 11). Agora quando? Agora que a Palavra de Deus o transformou. Dentro da prisão, a vida de Onésimo sofre uma grandiosa mutação (Filemom 9-10). Ele passa da condição de escravo a irmão de Filemom. Agora Onésimo tem um defensor, Paulo, que prepara uma carta de próprio punho e endereça a Filemom, testemunhando aquela transformação e coloca-se diante de Filemom como um seguro para Onésimo. A prisão de Paulo foi a solução para a vida de Onésimo (II Timóteo 2:9-10). Geralmente, quando não compreendemos os propósitos divinos, reclamamos das situações adversas que estamos passando. Paulo foi para a prisão por causa de Cristo e por amor a Cristo. Paulo descobriu a beleza do Evangelho numa prisão. Ele era livre, mesmo algemado e preso numa cela. Se não estivesse lá, Onésimo não seria salvo. O que Paulo pudesse pensar ser injustiça era uma oportunidade para a salvação de um perdido (Filemom 10).  

Paulo não se apresenta a Filemom como apóstolo ou líder, mas como prisioneiro de Cristo e como amigo (Filemom 1). Paulo declara que Onésimo é seu filho na fé e, dirigindo-se com amor, traça um elogio ao trabalho que executa em sua casa e como as pessoas que recebem sua palavra testemunharam com alegria (Filemom 5-7). Paulo não usa sua autoridade apostólica. Ele pede com um carinho especial de pai para que Filemom o receba e afirma que gostaria que Onésimo ficassem em Roma para ajuda-lo, mas sabendo a quem ele pertence, o envia para que haja uma reconciliação (Filemom 8-14). E finaliza dizendo: “Escrevi-te confiando na tua obediência, sabendo que ainda farás mais do que digo” (Filemom 21). Quando nos preocupamos e oramos pelos nossos amigos, o Senhor recompensa-nos abundantemente, concedendo-nos até aquilo que não pedimos (Jó 42:10). Mesmo em situações de profunda crise, a intercessão em favor dos outros traz grandíssima recompensa (Ester 4:14-17 / 8:15-17). Daniel orava três vezes ao dia. Ele era um deportado. Ele também estava longe dos seus em terra estranha, mas intercedia pela sua família e pelos seus concidadãos todos os dias. A recompensa veio de várias maneiras. Ele foi salvo da boca dos leões. Ele tornou-se um príncipe e o chefe dos sábios. Ele foi exaltado perante o rei e, por fim, foi agraciado com a presença de um anjo, fazendo dele um profeta escatológico (Daniel 10:2-12). Além das grandes vantagens que a intercessão traz à igreja, à família, ao país e aos crentes em particular, o intercessor é contemplado com a graça e a misericórdia de Deus de forma abundante, traduzida em bênçãos, tal como aconteceu com os servos de Deus no passado.

Onésimo encontrou no cárcere de Roma nada menos que o homem que havia pregado para o seu senhor. Pode-se dizer que Onésimo foi um homem agraciado em todos os sentidos. Ao interceder, Paulo relembra algo a Filemom: “Ainda que tenha Cristo grande confiança para te mandar o que te convém, todavia peço-te antes por amor” (Filemom 8- 9). Vai ser duro para Filemom considerar como irmão a um escravo fugitivo, mas é exatamente o que Paulo lhe ordena (Filemom 17). O apóstolo também se propõe a pagar todas as perdas que Onésimo tenha acarretado a Filemom, lembrando-o sutilmente que ele lhe deve muito mais que valores, deve-lhe sua vida espiritual (Filemom 18-20). O versículo 19 de Filemom dá a entender que foi Paulo quem levou Filemom a fé em Cristo. O Apóstolo usa esse relacionamento especial para incentivar o amigo a receber Onésimo. Filemom e Onésimo não eram somente irmãos espirituais no Senhor, eles também foram gerados pelo mesmo “pai espiritual” (Filemom 10 / I Coríntios 4:15).


Um mediador entre Deus e homens

O livro de Jó registra a mais longa conversa entre Deus e um ser humano. O patriarca foi atingido pelo caos e tentando justificar a própria condição, apresentou diante do Senhor todos os seus argumentos. Deus o ouviu atentamente e logo depois, respondeu veementemente cada uma das indagações. Ao final da conversa, Jó compreendeu que sua visão limitada não podia entender a grandeza dos planos divinos, e que sua parte nesta relação, era de fato se submeter a vontade do Senhor. Porém, Jó apresenta diante do Todo Poderoso um argumento que de fato repercutiria na eternidade. Jó admite sua pequinês diante de Deus, mas clama por maior justiça nesta relação: Não é homem como eu, para que eu lhe responda e nos enfrentemos em juízo. Se tão-somente houvesse alguém para servir de árbitro entre nós, para impor as mãos sobre nós dois, alguém que afastasse de mim a vara de Deus, para que o seu terror não mais me assustasse! Então eu falaria se m medo; mas não é esse o caso (Jó 9:32-35). O patriarca percebeu que jamais poderia olhar nos olhos de Deus, pois as diferenças entre eles eram infinitas. Na sua análise, era necessário um mediador que se pusesse entre os dois, alguém que tivesse compreensão do plano divino, mas também com conhecimento de causa da condição humana. Uma analogia bem simples pode ser encontrada na cozinha de nossas casas. Quem faz um bolo, tem total controle sobre a receita, escolhe e prepara os ingredientes, trabalha a massa e dá formato. Aquece o forno na temperatura que desejar e define quanto tempo a massa deverá ficar no fogo. Em suma, o cozinheiro conhece plenamente o bolo, sabe do que é feito porque foi ele quem o fez. Ele sabe quanto tempo de aquecimento é necessário e conhece o passo a passo da receita, consciente do que virá depois. Mas nunca saberá como é estar “dentro do forno”, pois ele fez o bolo, mas “não é” o bolo. Exatamente por isso, o verbo se fez carne e habitou entre nós (João 1:14).

Para entender a lógica humana, Deus se fez homem.  O mediador pode ser entendido pode ser entendido como alguém que se torna responsável pela conciliação de partes conflitantes. Ele se torna um elo que junta metades antes partidas. Na história de Filemom e Onésimo, o apóstolo Paulo surge como o intermediário que unirá desafetos em laços fraternais. Podemos observar aqui, uma belíssima tipologia para entendermos o papel de Cristo na reconciliação do homem com Deus. Aqui vale lembrar que Onésimo pertencia a Filemom, porém escolheu se afastar de seu senhor. Assim podemos dizer que um representa o PAI abandonado e o outro se torna o filho rebelde. Longe da casa, Onésimo se envolve em situações extremadas que culminam em sua prisão. Ali, ele amargaria dias de solidão e ostracismo, pois ninguém se interessaria em intervir por um homem sem posses e com histórico de escravidão. Mas ali, ele se encontra com um homem culto e muito bem relacionado, que por amor, “optou” ser um prisioneiro do Evangelho. Paulo toma conhecimento da história de seu novo companheiro de cela, e se identifica com o sofrimento alheio, pois também está vivendo uma situação semelhante, partilhando do mesmo teto, do mesmo chão e do mesmo ar. O detalhe é que este prisioneiro elitizado, também tem vínculos muito profundos com o senhorio que fora lesado por Onésimo, o homem que podia lhe devolver a liberdade e detentor do perdão redentor. Paulo fala a língua do senhor e o dialeto do escravo, ele tem a capacidade de olhar ambos nos olhos com a mesma ternura e compaixão. O apostolo, então, age afim de que a reconciliação aconteça.

Ele escreve uma carta a Filemom capaz de amaciar até o coração mais enrijecido. Nela, as novas qualidades de Onésimo são apresentadas, já que o escravo se tornou um obreiro útil e produtivo. As ações de Paulo foram responsáveis pela transformação do caráter daquele homem, que deixando as agruras do passado para traz, havia se tornado um homem cheio de Deus. Paulo pede que Filemom liquide as pendencias recebendo de volta em sua casa o escravo foragido. Com isso a lei dos homens seria cumprida. O apóstolo também autoriza que qualquer valor financeiro devido por Onésimo, seja imediatamente transferido para sua conta pessoal. Uma vez que as dívidas tivessem sido pagas, então Onésimo deveria ser promovido a “irmão” e não mais ser tratado como escravo. Jesus também interpelou ao Deus Pai por cada um de nós, pagando o preço de nossos pecados e nos resgatando da escravidão. E foi muito além: Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer (João 15:15).


Perdendo para ganhar

Se algum dia Filemom anunciou o Evangelho a Onésimo não o sabemos. Mas, ao abraçar ao Senhor, a conversão de Onésimo gerou uma nova relação, onde as diferenças externas foram abolidas e para Filemom era aceitar ou rejeitar (I Coríntios 12:13 / Gálatas 3:28). Onésimo sai como um ladrão e retorna como um irmão. A graça fez com que Filemom e Onésimo se encontrassem num mesmo nível porque Cristo era Senhor de ambos. Paulo diz que Filemom o perdera por um tempo para tê-lo para sempre (Filemom 15). Ou seja, foi preciso que ele perdesse para poder ganhar (Filipenses 3:8). Onésimo tinha fugido como escravo e era como tal que retornava, mas agora não só era um escravo, era também um irmão amado no Senhor. Aquele que antes o servia por medo agora o serviria com amor e como uma pessoa da família (I João 4:16). Essa nova relação nunca dava ao escravo o direito de ser negligente, nem de aproveitar-se; fazia dele um servo mais eficiente, porque agora devia fazer as coisas de tal maneira que pudesse oferece-las a Cristo. Quanto ao senhor significava que já não trataria seu servo como uma coisa, mas sim como uma pessoa e como um irmão em Cristo.

Precisamos estar atentos para entender como Deus está se movendo, para que as verdades do mundo espiritual não passem despercebidas (I Coríntios 2:14, 15). Primeiro, Onésimo furta algo e foge, depois é preso e encontra-se com Paulo, o pai na fé de Filemom e o líder da igreja que presidia. Nada disso aconteceu por acaso. Onésimo e constituiu em um grande teste de fé para Filemom, porque qualquer reação contrária à fé que anunciava poderia manchar seu ministério. O teste de fé era exercer o amor e o perdão que ensinava (Mateus 6:15 / Efésios 4:32).

Cinquenta anos mais tarde, levado para execução desde sua igreja em Antioquia até Roma, Inácio, um dos grandes mártires cristãos, escreve cartas, que ainda existem, às igrejas da Ásia Menor. Detém-se em Esmirna e dali escreve à igreja de Éfeso. No primeiro capítulo de sua carta, fala muito a respeito de seu maravilhoso bispo. E qual é o Nome do Bispo? Onésimo. E Inácio faz exatamente o mesmo trocadilho que Paulo tinha feito: “É Onésimo de nome por natureza, útil para Cristo”. Onésimo, o escravo fugitivo, chegaria a ser, com o passar dos anos, nada menos que Onésimo, o grande bispo de Éfeso (Colossenses 2:6 / 4:9). O futuro declarou o que realmente foi gerado naquela prisão onde Paulo e Onésimo um dia se encontraram. Merece ser destacado para eles que as prisões podem ser a incubadora que Deus cria para que venhamos a dar frutos que abençoarão milhares de vida. 

Conclusão


É preciso mais do que amor para resolver problemas. O amor deve pagar um preço. Deus nos salvou por Seu amor e deu Seu Filho por nós (Efésios 2:8-9). A graça de Deus é o Seu amor, que cobriu o salário do pecado, nos resgatou e nos deu a vida eterna (Romanos 6:23).




Participe da EBD deste domingo, 25/10/2015, e descubra você também os segredos para uma vida de fé e atitudes

Material Didático:
Revista Jovens e Adultos nº 97 - Editora Betel
Comentarista: Pr. José Fernandes Correia Noleto
Maturidade Espiritual 
Lição 4 

Comentários Adicionais (em azul):
Pb. Miquéias Daniel Gomes




quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Quarta Forte com Pregº Thiago Real



O mar da Galileia é na verdade um grande lago de 166 KM2, cercado por um anel de montanhas. Foi cientificamente provado que esta posição geográfica única é diretamente responsável pelas tempestades que varrem o lago durante as últimas horas do dia. Essa condição ainda existe até hoje e os pescadores locais exercem muita cautela. É muito incomum que Jesus decidiu navegar através do lago à noite. Ele estava bem ciente dos riscos envolvidos. Além dos discípulos também estarem muito exausto depois de um longo dia de ministério, o pedido de Jesus não parece justo para eles. Todos esses fatores levam somente a uma conclusão. Jesus direcionou seus discípulos para uma tempestade consciente e deliberadamente! Por que Jesus faria algo assim? 

Quando a tempestade começa a assolar o barco, os discípulos desesperados usam todos os seus conhecimentos para se esquivar na tormenta. Enquanto isso, Jesus, exausto pelo longo dia, dorme tranquilamente na polpa da embarcação. Ao notarem a tranquilidade do Mestre, seus discípulos o acordam bruscamente e insinuam que ele esta sendo omisso num momento de crise. Calmamente Jesus se levanta, olha nos olhos de seus discípulos a procura de uma fagulha de fé, mas só encontra medo. Com poder e autoridade, Jesus ergue sua voz de comando em direção ao mar, ordenando que o vento cessasse e o mar se acalmasse. Imediatamente, fez se bonança. Naquela noite, os discípulos aprenderam que se Jesus esta no barco, não há motivos para temer os vendavais.

Quantas vezes nos encontramos nesta mesma situação? As ondas se levantam, o vento sibila violentamente e parece que nosso barco ira naufragar. Mas se Jesus for o Senhor de nossa embarcação, a nau não vai a pique. Com Cristo, os ventos podem até atingir nossa vida, nosso ministério, nossa casamento, nossas finanças, nossa saúde... Mas não serão fortes o suficientes para superar a voz de Jesus Cristo, que na hora exata, se erguera em nosso favor, bradando contra o mar e trazendo paz a nossa jornada. A palavra dita por Jesus produziu calmaria instantânea. E sua voz ainda esta bradando pelo ar, e  pode ser ouvida por aqueles que se propõem a escutar. Nenhuma força, por maior que seja, pode perturbar ou causar destruição, quando a alma dá ouvidos a voz de Jesus e a obedece. Não de ouvidos a voz do mar, mas concentre-se na doce e meiga voz do Salvador.

E foi com uma maravilhosa palavra inspirada em Marcos 4, que o pregador Thiago Real abrilhantou a Quarta Forte realizada neste dia 21/10/2015. As tempestades são usadas pelo Senhor para nos ensinar a confiar em sua intervenção, no seu poder e em seus milagres. Cabe a nós sermos servos obedientes, assimilar o ensinamento com sabedoria e viver intensamente o poder de Jesus Cristo!



Filme - Bambus no Inverno

O longa metragem “Bambus no Inverno” (Bamboo in Winter), é uma co-produção China/EUA da Open Doors, conhecida no Brasil como “Missão Portas Abertas Internacional”. O filme foi premiado pela Associação de Produtores Cristãos de Filmes (ICVM), em diversas categorias recebendo 9 estatuetas do Crown Awards, e é considerado um clássico do cinema cristão Mundial. Foi o primeiro filme evangélico a ser distribuído em versão dublada e também a ser exibido em  canal aberto de TV. Lançado originalmente em 1991, o filme tem a direção de Bill Meyers, contando em seu elenco com Crystal Kwok, Ian McIntoshi e Cinda Hui. 

Ah Choi é uma jovem de um remoto vilarejo no interior da China. Diferente da maioria, tem formação acadêmica e não se conforma com a pobreza e com a repressão do governo à sua vila. Ela tem um futuro promissor pela frente: um bom emprego, dinheiro e até um casamento. Mas, para isso, terá que deixar a vila e seguir seu caminho. Durante a visita de um evangelista, ela encontra outra verdade que transformará toda a sua carreira: a Palavra de Deus.

Bambus no inverno é um dos filmes cristãos mais premiados da história e retrata a realidade da Igreja chinesa que , apesar da perseguição, continua crescendo.



terça-feira, 20 de outubro de 2015

Biografia - John Gibson Paton




John Gibson Paton (1824-1907) era um missionário pioneiro nas ilhas Novas Hébrides (hoje Vanuatu) ao sul do Oceano Pacífico. Converteu-se ainda criança e logo se dedicou ao Serviço do Senhor Jesus Cristo. Podemos conhecer um pouco mais sobre este grande missionário através de sua biografia, que foi publicada em dois volumes em 1889. Um terceiro volume, escrito pelo seu filho Frank, e publicado em 1910, tratando  dos seus anos finais:

Nasci em 24/05/1824 numa pequena casa na fazenda de Braehead, na paróquia de Kirkmahoe, perto de Dumfries, no sul da Escócia. Meu pai, James Paton, era fabricante de meias em pequena escala; ele e a sua jovem esposa, Janet Jardine Rogerson, viviam uma afetuosa amizade pessoal com o fazendeiro, por isso deram-me o nome dele, John Gibson. Enquanto criança, mais ou menos cinco anos de idade, meus pais levaram-me para um novo lar na aldeia de Torthorwald, distante 7 km ao norte de Dumfries. Nessa época, cerca de 1830, Torthorwald era apenas uma aldeia, movimentada e próspera, e comparativamente populosa com seus rendeiros, chacareiros, fazendeiros, em grande e pequena escala, ferreiros e alfaiates. Lá, nessa vida em uma aldeia sadia e ventosa, os nossos queridos pais encontraram seu lar por um período de quarenta anos. Ali nasceram mais oito filhos, constituindo uma família de cinco filhos e seis filhas.

Nosso lugar de culto era a Igreja Presbiteriana Reformada, em Dumfries. Diz a tradição, que em quarenta anos meu pai só faltou ao culto do Senhor por três vezes. Todos nós, desde bem novos, não considerávamos ser um castigo, antes uma grande alegria, acompanhar o nosso pai às reuniões da igreja. Realizávamos também leituras especiais da Bíblia nos domingos à noite – mãe, filhos e visitantes lendo por vez, com perguntas, respostas e exposições novas e interessantes, tendo o propósito de nos impressionar com a graça infinita de um Deus de amor e misericórdia no grande dom do Seu Filho amado, Jesus Cristo nosso Salvador.

Embora com menos de doze anos de idade, comecei a aprender o ofício de meu pai, no qual fiz progresso surpreendente. Trabalhávamos das seis da manha até às dez da noite, com meia hora para o café da manhã, uma hora para o almoço e outra para o jantar. Nestes momentos me dedicava diariamente aos estudos, principalmente com as primeiras noções de latim e grego, pois eu tinha entregue minha alma a Deus e tinha resolvido ser missionário da Cruz ou um ministro do Evangelho. Todavia, testifico com alegria que o que aprendi no tear, ao fabricar meias, não foi sem valor. A habilidade em usar ferramentas, vigiar e manter as máquinas, viria ser de grande valor no campo missionário.

As orações de meu pai me impressionaram nessa época, nunca poderei explicar, pois nenhum estranho compreenderia. Quando de joelhos, e todos nós ajoelhados ao seu redor no culto familiar, ele derramava toda a sua alma em lágrimas a favor da conversão do mundo pagão ao serviço de Jesus e a favor de toda necessidade doméstica. Todos nós sentíamos como se estivéssemos na presença do Salvador vivo, e aprendemos conhecê-Lo e amá-Lo como o nosso Amigo Divino. Ao levantarmo-nos (dos nossos joelhos), eu costumava olhar a luz do rosto do meu pai e desejava ser como ele em espírito, esperando que, em resposta às suas orações, poderia ser privilegiado e preparado para levar o Evangelho a alguma parte do mundo pagão.

Alguns anos depois me conseguiram um trabalho junto ao Regimento de Sapadores e Mineiros que estava traçando mapas do condado de Dumfries para o Departamento de Cartografia do governo. As horas no escritório eram das 9 da manhã às 4 da tarde; embora a minha caminhada de casa fosse de mais de 6 km, todas às manhãs e de volta à tarde, descobri muito tempo de sobra para estudo particular tanto no caminho para o serviço, quanto nas horas extras. Em vez de gastar a hora do meio-dia junto aos demais jogando futebol e outros jogos, me retirava para um lugar tranqüilo às margens do rio Nith e lá estudava intensamente o meu livro a sós. Sem que eu soubesse, o nosso tenente vinha observando isso de sua casa no outro lado do rio e, depois de algum tempo, me chamou ao seu escritório e perguntou o que eu estava estudando. Contei-lhe toda a verdade acerca da minha posição e os meus desejos.

Após consultar alguns dos outros oficiais ele me prometeu uma promoção no serviço e treinamento especial à custa do governo, com a condição que eu assinasse um contrato por sete anos. Agradecendo-o muito pela bondosa oferta, concordei em me comprometer por três ou quatro anos, mas não sete. Com excitação, ele me disse: "Por que você recusa uma oferta que muitos filhos de gente fina considerariam uma honra?" Eu respondi: "A minha vida é dada a outro Mestre, portanto não posso me comprometer por sete anos". Ele perguntou rispidamente: "A quem?" Eu disse: "Ao Senhor Jesus, e quero me preparar o mais depressa possível para o Seu Serviço na proclamação do Evangelho". Enfurecido ele pulou para o outro lado da sala, chamou o comissário e exclamou: "Aceite a minha oferta, ou será demitido imediatamente!" Respondi: "Sentiria muito se o senhor fizesse isso, mas se eu fosse me prender por sete anos provavelmente frustraria o propósito da minha vida e, embora estar muito grato ao senhor, não posso assumir tal compromisso". A raiva dele o fez indisposto ou incapaz de compreender a minha dificuldade. Os instrumentos foram devolvidos, recebi meu salário e sem mais conversa fui-me embora.

Depois de um emprego numa fazenda, John foi chamado a ir para Glasgow, cidade principal da Escócia a uma grande distância de Dumfries. Lá ele tinha uma entrevista para um serviço como professor:

Deixei meu lar tranqüilo na região rural a caminho de Glasgow. Alias, literalmente no caminho, pois de Torthorwald a Kilmarnock, uns 65 km, deveria ser atravessado a pé, e depois até Glasgow por ferrovia. Uma pequena trouxa continha minha Bíblia e todo os meus pertences pessoais. Assim fui introduzido no grande mar da vida. "Conheço a tua pobreza, mas tu és rico".

Meu querido pai andou comigo nos primeiros 9 km do caminho. Seus conselhos, lágrimas e conversa celestial daquela viagem de partida foram tão nítidas no meu coração como se fosse ontem; as lágrimas estão no meu rosto tão copiosamente agora quanto naquela vez, quando a memória me leva de volta àquele lugar. No último meio quilômetro, andamos juntos num silêncio quase total, meu pai, como de costume carregando seu chapéu na mão, seus lábios moviam em orações silenciosas a meu favor, suas lágrimas caíram rapidamente quando os nossos olhos se encontraram. Paramos ao chegarmos no ponto de partida. Ele pegou na minha mão com firmeza e por um minuto ficou em silêncio, então ele me disse com amor e solenidade: "Deus te abençoe, meu filho! O Deus de seu pai te prospere e te guarde do mal!" Sem poder dizer mais nada, seus lábios moviam em oração silenciosa. Com lágrimas nos abraçamos e partimos. Olhei através dos olhos turvos de lágrimas até que a sua forma desapareceu da minha vista, e então me apressando no meu caminho jurei solenemente, muitas vezes com a ajuda de Deus, de viver e agir de tal maneira que os pais que Ele me deu nunca viriam a ser entristecidos ou desonrados.

John G. Paton, depois de chegar em Glasgow, trabalhou como professor por um curto período de tempo e como missionário com a Glasgow City Mission por dez anos, entre 1847 e 1857, onde teve muito êxito na tarefa de evangelização e no combate contra o alcoolismo:

Durante todo o período que passei na Missão, continuei penosamente com os meus estudos, primeiramente na Universidade de Glasgow, depois na Faculdade de Teologia da Presbiteriana Reformada e em classes de medicina no Andersonian College. Nunca consegui a erudição que tanto desejei, visto que não tive a oportunidade de formar um bom alicerce nos meus primeiros anos escolares. Todavia, eu contava muito com a presença do Mestre Amado em todos os meus esforços; algo que tristemente faltava a muitos estudantes melhores que eu. Fui sustentado pelo sublime alvo que ardeu durante todos aqueles anos dentro da minha alma, ou seja, ser qualificado como pregador do Evangelho de Cristo a fim de ser reconhecido e usado por Ele na salvação de homens que pereciam. Contente como me sentia e bem sucedido pelas bênçãos de Deus, mesmo assim eu ouvia continuamente o clamor dos pagãos perecendo nos “mares do sul”. Eu tinha percebido que poucos demonstravam interesse por eles, enquanto eu bem sabia que muitos estavam prontos para fazer a minha obra e levá-la avante.

Sem revelar o meu estado de espírito para qualquer outra pessoa, isto foi o supremo assunto da minha meditação e oração diária. Foi isso que me levou a entrar nos estudos de medicina, e me propus a fazer o curso inteiro. Todavia, ao final do terceiro ano, um incidente me impeliu, de imediato, para o campo missionário estrangeiro. A Igreja Presbiteriana Reformada da Escócia, na qual fui criado, estava pedindo por um outro missionário para se ajuntar a John Inglis no seu grande trabalho nas Novas Hébrides. Dr. Bates, o excelente presidente da Comissão de Missões entre Pagãos, estava muito entristecido porque por dois anos o seu apelo tivera falhado.

John assistiu a uma reunião do Sínodo onde ficou evidente que ninguém mostrou o desejo de fazer aquele trabalho.

Novamente a causa foi colocada solenemente perante o Senhor, em oração, e uma nuvem de tristeza parecia pairar sobre todos os presentes. O Senhor ficou dizendo dentro de mim: “Visto que ninguém melhor qualificado pode ser encontrado, levante-se e ofereça a si mesmo!”. Quase irresistível foi o impulso que tive para responder em voz audível: “Eis me aqui, envia-me a mim!”. Todavia, sentia muito medo de confundir as minhas próprias emoções com a voz de Deus. Por isso resolvi fazer disso o assunto de meditação e oração por mais alguns dias, e considerar a proposição de todo aspecto possível. Além disso, fiquei muito preocupado acerca do efeito sobre as centenas de jovens, e outros, agora ligados a todas as minhas classes e reuniões. Mesmo assim, senti uma certeza crescente que aquilo era o chamado de Deus ao Seu servo, e que, Aquele que estava pronto a me empregar no Seu trabalho no exterior, era também capaz de providenciar, imediatamente, o que seria necessário para a continuação do trabalho em Glasgow. O clamor e a necessidade dos pagãos sempre estiveram soando em meus ouvidos. Via-os perecerem por falta do conhecimento do verdadeiro Deus e Seu Filho Jesus, enquanto meu povo tinha a Bíblia aberta e todos os meios da graça ao alcance, caso a rejeitassem, a rejeitariam propositalmente por sua conta e risco.

Após muita oração, John se ofereceu para o trabalho nas Ilhas Novas Hébrides, sendo aceito com grande alegria pelo Dr. Bates.

Quando se tornou conhecido que estive me preparando para ir ao exterior como missionário, quase todos estavam totalmente contra a idéia, com exceção do Dr. Bates e um colega estudantil. Meus queridos pais, quando os consultei, responderam-me “que há muito tempo eles me tinham entregue ao Senhor, e neste assunto também me deixariam ao dispor de Deus”. De outros lugares fomos pressionados com fortes oposições. Entre os muitos que procuraram me deter, havia um velho e querido cristão, cujo argumento principal sempre foi: “Os canibais! Será comido pelos canibais!” Por fim lhe respondi: “Sr. Dickson, o senhor já está muito avançado em anos e a sua expectativa é de logo ser colocado no túmulo e ali ser comido pelas minhocas. Devo confessar ao senhor que se eu tão somente posso viver e morrer honrando ao Senhor Jesus, pouco me importa se eu for comido pelos canibais ou pelas minhocas, pois, no Grande Dia, meu corpo será ressuscitado tão bonito quanto ao do senhor, na semelhança do nosso Redentor vivo”. O velho, levantando as mãos num gesto de discordância, saiu da sala exclamando: “Depois dessa, não tenho mais nada a dizer!”.

John conta como o Senhor providenciou a continuação da obra de evangelização em Glasgow e como abençoou aquele trabalho. Pouco antes de sair da Escócia, ele se casou com Mary Ann Robson.

No dia 23/3/1858, na presença de uma grande multidão e depois de um sermão maravilhoso acerca de “Passa a Macedônia e ajuda-nos” (Atos 16:9), fomos ordenados solenemente como ministros do Evangelho e designados como missionários às Novas Hébrides. No dia 16/4, partimos da Escócia viajando para o campo missionário.

John e Mary, depois de uma visita a Austrália, chegaram nas ilhas Novas Hébrides no dia 31/8. O jovem casal logo foi designado para estabelecer uma nova base missionária na ilha de Tanna, um povo indígena totalmente ignorante quanto à civilização ocidental, a não ser pela exploração por parte de alguns maus comerciantes. Depois de poucos meses na ilha, John sofreu um duríssimo golpe.

Eu e a minha jovem e querida esposa, Mary Ann Robson, desembarcamos em Tanna no dia 5/11/1858 com plena saúde e cheios de grandes esperanças santas e amorosas. No dia 12/2/1859 ela deu à luz a um filho; por dois dias tanto a mãe quanto a criança pareciam prosperar, e o nosso exílio na ilha ficou cheio de gozo! Todavia, a maior das tristezas viria logo após aquele gozo. As forças da minha querida Mary não deram sinal de recuperação, pois sofrera uma crise de malária alguns dias antes de dar à luz. No terceiro dia após o parto, mais ou menos, a crise se repetiu com severidade, aumentando a febre a cada dois dias, por quinze dias. Seguiu-se a isto a diarréia, sintomas de pneumonia e um pouco de delírio de vez em quando. Num momento totalmente inesperado, veio a falecer no dia 3/3. Para culminar as minhas tristezas e completar a minha solidão, o bebê me foi tirado no dia 20/3, após uma semana de enfermidade. Deixo àqueles que já passaram por trevas semelhantes se simpatizarem comigo; quanto aos demais, seria mais do que inútil descrever as minhas tristezas. Se não fosse por Jesus e a comunhão que Ele me outorgou, certamente teria ficado louco e falecido ao lado daquele túmulo solitário. Não posso afirmar que entendo o mistério de tais visitações, quando Deus leva embora jovens, que prometem e parecem tão necessários para o Seu Serviço, mas uma coisa sei e sinto, que à luz de tais situações nos convém amar e servir o nosso amado Senhor Jesus para que estejamos prontos quando Ele nos chamar para a eternidade.

John Paton continua com a história da sua vida missionária na ilha de Tanna (Novas Hebrides). Este relato é de 1860:

Algumas semanas de tempo seco começaram a afetar o crescimento dos inhames e das bananas do povo. A seca foi imediatamente atribuída a nós e ao nosso Deus. Os indígenas de toda parte foram convocados para considerar o assunto em assembléia pública. No dia seguinte, Nouqua, o cacique maior, e Miaqui, o chefe de guerra, sobrinho de Nouqua, nos informaram que dois caciques poderosos tinham declarado abertamente naquela assembléia que, caso o povo do porto não nos assassinassem ou nos forçassem a sair da ilha, eles chamariam todo o povo do interior e matariam tanto os nossos caciques como a nós, a não ser que a chuva viesse copiosamente nesse intervalo. Os caciques amigáveis nos disseram: "Roguem ao seu Deus Jeová para que chova, e não vá muito longe da sua porta por um tempo; estamos todos no maior perigo, e caso a guerra venha tememos não poder protegê-los". Esta amizade, todavia, era fingida. Eles mesmos, por serem homens considerados "sagrados", que professavam ter o poder de enviar ou impedir a chuva, de fato quiseram lançar sobre nós a culpa da sua incompetência. Assim, a ira dos pagãos ignorantes foi fomentada contra nós.

O "Sempre Misericordioso", porém, mais uma vez Se interpôs a nosso favor. No domingo seguinte, quando estávamos reunidos para adoração, a chuva começou a cair em grande abundância. Todos os habitantes acreditaram que ela foi enviada para nos salvar, em resposta às nossas orações. Assim se reuniram novamente e resolveram nos deixar permanecer em Tanna. Entretanto, para nossa tristeza, as chuvas ininterruptas e torrenciais trouxeram muita doença e febre, e novamente os "homens sagrados" nos apontaram como sendo a causa. Ventos de furacão também sopraram e estragaram os frutos e suas árvores; mais uma oportunidade para colocarem a culpa de tudo nos missionários e no seu Deus Jeová! A provação e o perigo cresciam diariamente no meio de um povo tão terrivelmente mergulhado na superstição, e tão facilmente influenciado por preconceitos e paixão. Os indígenas de Tanna estavam quase que constantemente em guerra entre si, todo homem fazendo o que achava mais reto, e quase toda disputa acabava num apelo às armas. Num caso, acerca do qual recebemos informação confiável, sete homens foram mortos num combate, e, segundo o costume de Tanna, os guerreiros e os seus amigos os comeram no fim da luta. As viúvas dos que foram mortos foram estranguladas e tratadas de forma semelhante. Além daqueles que caíram na guerra, os nativos que viviam em nossa região tinham matado e comido oito pessoas, geralmente em ritos sacrificais. 

Dizem que o constante desejo dos canibais por carne humana se torna tão terrível a ponto de desenterrar e comerem os recém-sepultados. Dois casos desse barbarismo revoltante foram relatados como ocorrido entre os aldeões que moravam perto de nós. Numa outra ocasião o grande cacique Nouqua se tornou seriamente doente, e seu povo sacrificou três mulheres para sua recuperação. Entre os pagãos das Novas Hebrides, especialmente em Tanna, a mulher era escrava do homem. Ela era forçada a trabalhar duramente e levava todas as cargas mais pesadas, enquanto ele andava ao seu lado com uma espingarda, porrete ou lança. Se ela o ofendesse, ele a espancaria ou abusaria dela ao seu bel-prazer. Como é triste e degradante a posição da mulher onde o ensino de Cristo é desconhecido, ou menosprezado, embora conhecido! É o Cristo da Bíblia e o Seu Espírito que levantaram a mulher e a fizeram companheira e amiga do homem, não o seu brinquedo ou escrava.

Até ao ponto que nos era possível observar, o pagão embora seguindo vagamente alguma divisão da semana em sete dias, o "domingo" em Tanna era considerado como qualquer outro dia. Mesmo quando alguns foram persuadidos a desistir do trabalho manual naquele dia, o gastavam, tal como muitos cristãos em outros lugares, em visitas aos amigos e em prazeres egoísticos, como comer e beber. Depois de passarmos cerca de um ano na ilha, conseguimos realizar um culto no domingo pela manhã que foi assistido por mais ou menos dez caciques e um número igual de mulheres e crianças que lhes pertenciam.

Depois da reunião de domingo, costumávamos andar muitos quilômetros visitando as aldeias alcançáveis, mesmo antes de aprendermos suficientemente a sua língua para podermos conversar livremente com o povo. Às vezes fazíamos um itinerário circular entre as aldeias, de 16 a 19 km na ida e o mesmo tanto na volta. Tentávamos conversar um pouco com todos os que estavam dispostos a nos escutar; e realizávamos o culto a Jeová onde encontrávamos dois ou três dispostos a se reunir, se assentar, ou se ajoelhar ao nosso lado. Foi um trabalho fisicamente cansativo e, em muitos casos, desanimador. Não havia rostos e corações responsivos para nos animar e nos levantar em comunhão com o Senhor! Todavia, isso nos ajudou a contatar o povo, conhecer os distritos em redor, e isto permitiu que tivéssemos consideráveis audiências, exceto quando estavam envolvidos em guerra. Nenhum progresso verdadeiro poderia ser feito, no sentido de comunicar um conhecimento espiritual, até que conseguíssemos alguma familiaridade com a língua. Logo descobrimos a existência de duas línguas distintas faladas ao nosso redor, mas nos limitamos àquela que era mais compreendida entre os postos missionários e, pela ajuda de Deus, e grande esforço, conseguimos em pouco tempo conversar com eles acerca do pecado e da Salvação através de fé em Jesus Cristo.

Confesso que era um serviço difícil e penoso, pois os tanneses eram terrivelmente desonestos e quando havia qualquer doença especial, ou excitação por qualquer motivo, seus sentimentos ruins eram demonstrados pela maneira totalmente insolente e carregavam qualquer coisa de que poderiam apoderar-se. Quando me opunha contra eles, o machado, o pau, o mosquete ou a quawas (pedra de matar) eram imediatamente levantados, indicando que a minha vida seria tomada se os resistisse. A habilidade deles para roubar às escondidas era fenomenal! Em meio a essas tristezas, em vez do fracasso a nossa convicção aumentava, pois se Deus estava poupando a nossa vida para levá-los a amar e servir ao Senhor Jesus, logo passariam a nos tratar como seus amigos e colaboradores. Isto, todavia, não mudou os fatos árduos da minha vida, estando sozinho entre eles e sendo submetido às suas crueldades e enganado pelas suas constantes mentiras.

Talvez eu tivesse esperado demais pelo resultado das visitas de vários irmãos de fora durante essa época, incluindo o navio missionário John Williams. As impressões deixadas foram, sem dúvida, boas, todavia, sem valor permanente. Logo as coisas voltavam como antes entre os tanneses, na sua escuridão moral, guiados por satanás de acordo com a sua vontade, e impulsionados às trevas pagãs mais densas, todavia sabíamos que a transformação deles, pela graça Divina, seria possível. Com este intuito trabalhávamos, sem desfalecer, e caso desfalecêssemos nos levantaríamos novamente a fim de enfrentar tudo em Nome do Senhor que ali nos colocou.

John G. Paton, depois de perder sua esposa e filho, continuou na evangelização do povo de Tanna, tendo somente a companhia de alguns crentes da ilha de Anieitiuma. Como narrado nos artigos anteriores, este trabalho foi extremamente difícil, perigoso e desanimador. Em maio de 1861, um missionário canadense e sua esposa foram massacrados na ilha vizinha de Erromango. Os taneses, encorajados por esse exemplo, redobraram seus ataques a Paton, que, depois de escapar várias vezes por um triz, conseguiu sair de Tanna em segurança, mas perdeu todos os seus pertences a não ser a sua Bíblia e algumas traduções que havia feito para a língua da ilha durante seus quatro anos de luta. De Tanna, Paton chegou a Nova Gales do Sul, Austrália, onde não conhecia ninguém. Entrou numa igreja, pleiteou para ser ouvido por alguns poucos minutos, falou-lhes com tanta eficácia que daquele momento em diante participou num ministério especial que lhe viria ocupar os quarenta e cinco anos restantes da sua longa vida. Seu objetivo, que teve maravilhoso sucesso, foi providenciar missionários para cada uma das ilhas das Novas Hébrides e conseguir um navio para esse serviço missionário. Anos mais tarde, como resultado da sua personalidade extraordinária e poder de persuasão, o "Fundo de Missões John G. Paton" foi estabelecido em 1890 a fim de dar continuidade ao trabalho.

Voltando pela primeira vez à Escócia (1863-64), se casou novamente no dia 16/06/1864 com Margaret Whitecross. Junto com a sua nova esposa, e alguns missionários que tinha persuadido a ajuntaram-se a ele no trabalho, voltou ao pacífico no início de 1865. Depois de instalar os novos missionários em várias ilhas, Paton fixou residência na pequena ilha de Aniwa, onde permaneceu entre 1866 e 1881. Quando chegaram a Aniwa, em novembro de 1866, observaram a miséria dos ilhéus. A situação foi muito semelhante àquela em Tanna: — As mesmas superstições, as mesmas crueldades canibalísticas e depravações, a mesma mentalidade bárbara, a mesma falta de impulso humanitário ou altruístico estavam em evidência. Mesmo assim, continuaram seu trabalho missionário. Foi em Aniwa que seis dos seus dez filhos nasceram, quatro dos quais faleceram bem novos. Seu quarto filho, Frank Paton, que mais tarde se tornou missionário nas Novas Hébrides, foi um destes que nasceu em Aniwa.

Como já mencionamos, os nativos eram canibais e, às vezes, comiam a carne dos seus inimigos derrotados. Praticavam infanticídios e sacrifício de viúvas, matando as viúvas dos derrotados a fim de que pudessem servir aos seus maridos no outro mundo. O culto deles era inteiramente baseado no medo, cujo alvo era propiciar a atuação de espíritos do mal a fim de "evitar" calamidade ou "assegurar" vingança. Endeusavam seus caciques a ponto de quase todas as aldeias ou tribos terem seu "homem sagrado". Estes sacerdotes exerciam uma influência para o mal, e lhes era concedida a decisão sobre a vida ou a morte através das suas cerimônias sagradas. Também adoravam os espíritos de ancestrais e heróis por meio dos seus ídolos materiais de madeira e pedra. Temiam os espíritos e procuravam a sua ajuda para a guerra e paz, fome e fartura, saúde e doença, destruição e prosperidade, e vida e morte. Toda a sua adoração era de medo servil, e, até onde eu pude verificar, não tinham nenhuma noção de um Deus de misericórdia ou graça.

Paton admitiu que às vezes seu coração vacilou quando se questionava se aquelas pessoas poderiam ser levadas a entender os princípios cristãos na percepção espiritual das suas vidas. Todavia, animou-se ao ver o poder do Evangelho pelo fato de milhares em Aneitium terem vindo a Cristo. Assim que teve o domínio da língua nativa representou as palavras por meio da escrita. Ele também construiu orfanatos: A Sra. Paton ensinou uma classe de mais ou menos cinqüenta mulheres e meninas. Tornaram-se competentes em costura, cântico, no entrelaçamento de chapéus e leitura. Eles treinaram professores, traduziram e imprimiram as Escrituras, ministraram aos doentes e aos que estavam morrendo, ministravam remédios todos os dias, e ensinaram o uso de ferramentas, etc. Realizavam reuniões de adoração todos os Dias do Senhor e enviavam professores nativos a todas as aldeias para pregar o Evangelho.

Nos quinze anos seguintes, John e Margaret Paton viram toda a ilha de Aniwa se converter a Cristo. Anos mais tarde ele escreveu: — Reivindiquei Aniwa para Jesus, e pela graça de Deus Aniwa agora adora aos pés do Salvador. Quando estava com 73 anos de idade e viajando através do mundo proclamando a causa de missões nos Mares do Sul, ainda estava ministrando ao seu povo querido Aniwano quando editou "O Novo Testamento na língua de Aniwa" em 1897. Mesmo até a hora da sua morte ele continuava traduzindo hinos, catecismos e criando um dicionário para o seu povo, mesmo quando não poderia mais estar com eles.

Foi durante uma visita à Escócia, em 1884, depois da sugestão do seu irmão caçula, Sr. James Paton, o missionário com relutância prometeu escrever sua autobiografia. James Paton (1843-1906), moldou os rascunhos do seu irmão para editar um livro. Seus últimos anos foram passados em Melbourne. Margaret Whitecross Paton foi chamada ao lar celestial aos 64 anos, no dia 16/05/1905. John sobreviveu por dois anos e faleceu em 28/01/1907.

Hoje, 97 anos após a morte de John Paton, cerca de 85% da população de Vanuatu se identifica como sendo "cristã", talvez 21% da população seja evangélica. Os sacrifícios e legado dos missionários às Novas Hebrides são espetaculares e John G. Paton se destaca como sendo um dos maiores.